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Esta iniciativa consite em ações que possibilitem momentos de reflexão e construção pedagogica, abrangendo ainda propostas significativas para a prática cotidiana do educadores. De acordo com o contexto escolar e vivências as ideias e sugestões podem ser adequadas as necessidades reais nas expectativas de educadores e educandos

9 de nov de 2013

Sala de aula: 20 dicas para dominar as modernas práticas pedagógicas

1. Plano de trabalho: conhecer a turma para saber o que e como fazer
Uma turma é sempre diferente da outra. Você sabe disso. E sabe também que, ao iniciar o trabalho com um novo grupo, é fundamental conhecê-lo bem. Só assim podem-se definir com clareza as melhores estratégias e os métodos e materiais a serem usados. É disso que trata o plano de trabalho. Baseado na proposta pedagógica da escola, ele deve também ser norteado pelo planejamento específico de cada série ou ciclo que varia de uma escola para outra. "O plano de trabalho trata das especificidades e demandas de cada turma", explica Maria Luisa Merino Xavier, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É importante, portanto, conversar com os professores da série anterior; descobrir se há alunos na turma com necessidades especiais; se existem, por exemplo, crianças de diversas culturas, etnias ou religiões; e pesquisar o histórico escolar de cada um. Entrevistas com os pais ou responsáveis também são úteis para saber com quem a criança mora, o que faz nas horas de lazer, se tem algum problema de saúde, de que brinquedos gosta e em que outras escolas estudou e como foram essas experiências. "É bom descobrir o que os pais pensam, o que esperam da escola e o que desejam para seus filhos", afirma Maria Luisa. Em sala, é hora de observar quem desenha bem, tem facilidade ou não para leitura, gosta de falar ou é mais tímido. Com tantas informações em mãos, você poderá elaborar estratégias adequadas para todo o grupo considerando as características de cada um. "O plano de trabalho não pode estar pronto nos primeiros dias de aula porque exige contato prévio com alunos e pais", afirma a professora. Além disso, é preciso levar em conta o seguinte: mesmo que você planeje suas aulas de acordo com os conteúdos a ser abordados, sempre haverá, ao longo do ano, a necessidade de mudar os rumos. Um dos motivos é atender às necessidades momentâneas dos alunos. De que adianta, por exemplo, seguir o roteiro sem abordar temas que todos vêem na TV, como as catástrofes naturais ocorridas ultimamente? "As aulas consistem em uma seleção pertinente para o momento, pois os conteúdos não se esgotam", diz Maria Luisa.

2.Avaliação: acompanhar o aluno para traçar o melhor caminho
A avaliação sempre deve estar a serviço do aluno. Isso significa que ela não tem como objetivo determinar as notas a ser enviadas à secretaria, mas acompanhar o caminho que o aluno faz, descobrir suas dificuldades e necessidades e alterar os rumos, se preciso. Ela é constante e pode ser feita durante trabalhos em grupo, jogos e brincadeiras. Só que o olhar do professor, nesses momentos coletivos, deve ser sempre para cada estudante. "Assim se observam os interesses e os avanços de todos na turma", revela Jussara Hoffmann, consultora em educação, de Porto Alegre. Ao pensar em avaliação, você pode lançar mão de atividades interativas em que existam o diálogo, a troca entre os alunos, a participação e a cooperação. Também é importante ter conversas individuais com os alunos, olhar o caderno e as produções, perguntar o que aprenderam e do que gostaram. O questionamento constante dá aos estudantes a oportunidade de aprofundar as suas respostas. Para que você aproveite tudo isso, o registro diário é fundamental. "A observação só se torna um instrumento válido quando é registrada. As anotações mostram em que as crianças se desenvolveram e em que elas ainda precisam avançar", afirma Jussara. Você pode ainda avaliar a produção de texto individual, as manifestações dos alunos sobre diversos assuntos ou sobre um mesmo tema, em vários momentos e as atividades menores, individuais e freqüentes, corrigidas imediatamente. É preciso garantir que o aluno possa expressar seu conhecimento de muitas maneiras (em músicas, textos, pinturas, fotos). Tudo isso contribui para a aprendizagem. O processo é semelhante a um percurso e seu papel não é esperar os alunos no final. Você acompanha a turma, ajudando a ultrapassar os obstáculos do caminho.

3. Contextualização: ela vai muito além da relação com o cotidiano
Existe uma certa confusão sobre o significado do termo contextualizar. A primeira definição é a de que se trata de trazer o assunto para o cotidiano dos alunos. É também, mas não só isso. Muitos conceitos e conteúdos são contextualizados na própria disciplina. "Isso significa colocar o objeto de estudo dentro de um universo em que ele faça sentido", afirma Ruy Berger, consultor em educação, de Brasília. Imagine que você está dando uma aula sobre divisão celular. Os estudantes precisam saber o que é DNA para poder entender o processo. Portanto, o DNA passa a ser um objeto de estudo que faz sentido nesse conteúdo, que é a divisão das células. Esse é um exemplo de contextualização que não está necessariamente ligado à vida das crianças (o que não impede que o professor diga que o DNA faz com que elas se pareçam com os seus pais, por exemplo). Entendido isso, evitam-se situações forçadas, em que o professor se sente na obrigação de relacionar todo e qualquer conteúdo à vida dos alunos. Algumas vezes, aquilo que ele não consegue contextualizar acaba até sendo excluído do currículo o que prejudica, e muito, a aprendizagem da turma.

4. Objetivo: só depois que ele é definido, vem o conteúdo e a metodologia
Os objetivos que o professor deseja alcançar devem sempre preceder sua ação. O ideal é estabelecer primeiro um objetivo e, depois, um caminho para alcançá-lo o que inclui definir o conteúdo e a metodologia. "É preciso ficar atento para ver se a escola não está fazendo o contrário: definindo o caminho, que é passar um conteúdo preestabelecido, para depois pensar nos objetivos", alerta Danilo Gandin, especialista em planejamento da educação, de Porto Alegre. Segundo ele, muitas vezes os professores ficam presos à obrigação de trabalhar o currículo preestabelecido e, ao mesmo tempo, à necessidade de fixar objetivos, mesmo que eles não façam sentido. "Aparecem situações estranhas: enquanto o objetivo é desenvolver a consciência crítica, o conteúdo a ser passado é a crase", afirma. Obviamente o que domina a cena é a crase, que o professor pensa que tem de ensinar. O objetivo aparece apenas porque alguém disse que ele deveria estar lá. Para Gandin, é preciso pensar no que vai ser feito e para quê. Dois exemplos de objetivos que norteiam um trabalho: 1) realizar um estudo sobre a escravidão para aumentar a solidariedade e compreender mais profundamente o significado da liberdade; e 2) estudar a variação dos preços em dois supermercados para iniciar a compreensão do processo econômico no país. Esses objetivos, é bom lembrar, devem sempre estar alinhados com a proposta pedagógica da escola. Os conteúdos e a metodologia, portanto, são o caminho a ser trilhado com base no que se estabeleceu como meta.

5. Conhecimento prévio e interesse dos alunos: quem descobre é você
Os conteúdos abordados em sala de aula devem, basicamente, contribuir para a formação de cidadãos conscientes, informados e capazes de melhorar a sociedade. Por isso, é muito comum os professores tentarem montar suas aulas tendo como centro do trabalho o interesse dos alunos. Dessa maneira, eles teriam mais elementos para refletir sobre o meio em que vivem e sobre o que os cerca. Essa prática, porém, nem sempre garante bons resultados. "Ocorre até o contrário. Ao dar importância somente ao que os estudantes já conhecem, muitas vezes os professores acabam caindo na superficialidade, presos a interesses imediatos", alerta Danilo Gandin. Segundo ele, como conseqüência, surge um currículo ditado pelas circunstâncias, que destaca acontecimentos pontuais e não um roteiro de trabalho construído com base na relação entre a proposta pedagógica e a realidade. "Essa questão só se resolve quando a equipe de cada escola define os grandes horizontes políticos e pedagógicos de seu trabalho e, confrontando esses grandes ideais com a realidade e com a prática, descobre as necessidades de seus alunos", conclui.

6. Trabalho Interdisciplinar: as matérias se unem e os alunos aprendem
A interdisciplinaridade ocorre quando, ao tratar de um assunto dentro de uma disciplina, você lança mão dos conhecimentos de outra. Ao estudar a velocidade e as condições de multiplicação de um vírus, por exemplo, é possível falar de uma epidemia ocorrida no passado devido às precárias condições de saúde e higiene e à pobreza do local. Daí, é possível até explorar, em outros momentos, os aspectos políticos e econômicos que geraram tamanha pobreza. A interdisciplinaridade é, portanto, a articulação que existe entre as disciplinas para que o conhecimento do aluno seja global, e não fragmentado. É muito comum a idéia de que, ao utilizar um tema gerador, se garante a interdisciplinaridade. "Ela não se resume em escolher um tema e abordá-lo segundo a visão de duas ou mais disciplinas", afirma Ruy Berger. Ao estudar a questão dos índios, por exemplo, o professor de História fala sobre a colonização do Brasil, o de Língua Portuguesa trabalha as lendas indígenas e o de Matemática acaba propondo um problema sobre o índio: isso não garante a relação entre as disciplinas. O tema gerador pode ser um ponto de partida, mas não o centro do estudo e nem se alongar muito, para os alunos não se cansarem. Ao planejar, portanto, é importante levantar quais são as possibilidades de trabalhar de forma interdisciplinar ao longo do ano. Essas oportunidades podem ser criadas com base nas pesquisas dos alunos e do próprio professor ou em parceria com os colegas de outras disciplinas.

7. Seqüência didática: uma série de aulas que desafia e ensina os alunos
A seqüência didática é um conjunto de aulas planejadas para ensinar um determinado conteúdo sem ter um produto final. Sua duração varia de dias a semanas e você pode elaborar várias sequências ao longo do ano, de acordo com o planejado ou com a necessidade dos alunos detectada pelo caminho. É possível, inclusive, aplicar essa modalidade ao mesmo tempo em disciplinas diferentes. "O princípio da seqüência didática é dar ao aluno desafios cada vez maiores para que ele se desenvolva", afirma Regina Scarpa, coordenadora pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac) e do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. Por exemplo: você quer que seus alunos aprendam o uso do "r" e do "rr". Primeiro observa o que eles já sabem a respeito e depois elabora uma série de aulas com várias atividades, jogos, questionamentos e muita reflexão, aumentando gradativamente a complexidade dos desafios propostos. Com esse tipo de abordagem, os alunos vão, aos poucos, percebendo que não existem palavras que começam com "rr" ou que não se usa "rr" após o "s", por exemplo. A seqüência didática é indicada, ainda, quando se quer trabalhar o universo de um determinado autor. "Além de ler suas obras, as crianças verão nessas aulas o que o autor escreve, que livros já publicou e qual o seu estilo", diz Regina. Se a idéia é trabalhar as diferentes versões da história do Pinóquio, outra seqüência pode ser estabelecida: leitura feita pelo professor do original e de uma segunda versão, leitura e reescrita em grupos de trechos de outras versões e a exibição de um filme sobre o personagem. Trabalhando dessa forma, os conteúdos se distribuem de maneira intencional e mais consistente.

8. Temas transversais: o pano de fundo do trabalho da escola
Temas transversais não são disciplinas, apenas permeiam todas elas. Se a escola decide abordar ética de maneira transversal, não pode estipular uma aula sobre o assunto uma vez por semana e esquecer dela no restante dos dias. "Esses temas precisam estar presentes em todas as disciplinas, o tempo todo, como pano de fundo do trabalho da escola", orienta Josca Baroukh, selecionadora do Prêmio Victor Civita. Segundo Josca, ao abordar os temas transversais, o professor leva os alunos a refletir para que eles tenham condições de construir conceitos, em vez de apenas coletar informações a respeito. "Caso contrário, é possível que os estudantes organizem uma coleta seletiva no bairro ou arrecadem alimentos para um asilo sem pensar no porquê de fazer aquilo", afirma. Se a escola propõe à garotada, por exemplo, mobilizar a população e a prefeitura da cidade para fazer um poço artesiano em benefício de uma comunidade que vive na seca, é preciso, antes da ação, uma reflexão profunda. O que é a seca? Que problemas ela traz? Um poço é a melhor solução para o momento? Há outras formas de contribuir? E, principalmente, por que devemos contribuir? Para Josca, não é apenas o conteúdo escolar que dá gancho a esse tipo de trabalho. "Uma notícia de jornal e até um conflito em sala de aula podem ser mote para reflexão. É um trabalho contínuo, que nem sempre depende do planejamento das aulas."

9. Tempo didático: para não errar na dose, é preciso ter objetivos claros
Muitas vezes é difícil definir quanto tempo será gasto para desenvolver um tema, uma atividade ou um projeto. Para não errar na medida, é fundamental ter em mente três pontos: o que você quer ensinar, como cada um de seus alunos aprende e como você irá acompanhar e avaliar o trabalho da garotada. "Se o tempo previsto der errado, é porque pelo menos um desses três itens não foi observado", afirma Regina Scarpa. Na prática, isso significa que você deve estabelecer, primeiramente, os objetivos e os conteúdos (seja para uma aula ou para um projeto mais longo). Depois, pensar nas atividades a ser desenvolvidas, baseando-se na maneira como seus alunos aprendem. Então, considerar que é preciso tempo para avaliar, constantemente, a produção da garotada e, dessa forma, saber se será necessário estender a abordagem de um ou outro conteúdo, sobre o qual as crianças apresentaram dificuldades. "É possível prever o tempo de um projeto, apesar dessas variações no meio do caminho", diz Regina. Por isso, é importante planejar o encerramento com certa antecedência em relação ao fim do bimestre ou do semestre. Se algum aluno não aprender, haverá uma folga. "Não faz sentido o professor fazer a revisão dos textos ou ilustrar um trabalho no lugar dos alunos porque o tempo acabou e é hora de concluir o projeto", diz Regina.

10. Inclusão: a escola leva o aluno com deficiência a avançar
Receber uma criança com deficiência não deve ser motivo de angústia. Cada vez mais a inclusão escolar tem sido discutida no meio educacional, e os professores hoje conseguem encontrar, em parceria com os pais, a coordenação da escola e os especialistas nas deficiências, caminhos seguros para trabalhar. "A escola serve para ampliar os conhecimentos dos estudantes. Por isso, o primeiro passo é procurar saber o que o aluno com deficiência já sabe e quais são as possibilidades que ele tem de aumentar esses conhecimentos", ressalta Maria Teresa Eglér Mantoan, da Universidade Estadual de Campinas. Procure descobrir como tem sido a experiência da criança, pesquisando seu histórico escolar e trocando informações com os pais e os professores das séries anteriores. Se ela estiver recebendo atendimento educacional especializado no contra turno em alguma instituição, é importante conversar com os especialistas ao longo de todo o ano para acompanhar seu desenvolvimento. Isso pode ajudar muito a planejar as aulas, definir estratégias e escolher os melhores materiais o que é bom não só para o aluno com deficiência mas para a turma toda. Se sua escola já oferece esse atendimento, a parceria com o professor especialista se dará de maneira ainda mais efetiva, pois o contato é diário. No caso de haver uma criança cega, esse profissional pode, por exemplo, ajudar você a elaborar materiais concretos para ensinar um conteúdo de Matemática (como figuras geométricas feitas em relevo, com tinta plástica ou sementes coladas no papel). "O professor deve receber essa criança como ele recebe todas as outras. Ela é, acima de tudo, um aprendiz", afirma Maria Teresa.

11. Matemática: interação entre os conteúdos é essencial
O melhor caminho para garantir o aprendizado da turma é relacionar os conteúdos matemáticos e mostrar como eles se complementam. Isso é o que dá significado ao estudo. Geralmente, os tópicos aparecem de forma fragmentada, como se não tivessem nenhuma ligação entre si. Na prática, é como ensinar multiplicação com o objetivo de fazer o aluno calcular mais rapidamente e de cabeça, sem fazer nenhuma relação com situações em que a operação é necessária. "O professor deve organizar os temas de forma que possam ser vistos como uma rede de significados", aponta Maria Sueli Cardoso, selecionadora do Prêmio Victor Civita. Por exemplo: em vez de pedir à turma apenas para calcular quanto é 2 x 4, é possível pedir para desenhar em um papel quadriculado duas colunas com quatro linhas. Assim todos perceberão que 2 x 4 é igual a 8 quadradinhos. Esse resultado significa também a área de um retângulo (com 2 unidades de altura e 4 de comprimento). Nesse tipo de atividade, estão relacionados multiplicação, figura geométrica e perímetro. "É sempre interessante que o aluno compreenda que um mesmo assunto pode ser estudado sob vários aspectos", diz Sueli.

12. Língua Portuguesa (1ªa 4ª): mais importância para a oralidade
Atividades de leitura e escrita aparecem muito nas primeiras séries do Ensino Fundamental. Mas e a oralidade, onde fica? Para Eliane Mingues, selecionadora do Prêmio Victor Civita, é importante criar situações em que as crianças utilizem as três práticas. Elas podem elaborar uma coletânea de contos ou poemas; um livro de receitas; ou o encarte de um CD com as canções preferidas da turma. Para fazer a coletânea de poemas, por exemplo, a garotada tem que ler, selecionar, recitar e escrever as poesias. Essas situações ensinam a leitura e a escrita e também a oralidade, o que será útil para a vida dentro e fora da escola. "Alunos que não vivem situações de fala formal em sala de aula podem demorar mais para construir esse conhecimento", afirma. Surge, assim, a dificuldade em se expressar, elaborar apresentações e criar argumentos sobre o que pensam. O mesmo vale para a dificuldade em anotar, pesquisar e resumir. "Quando as crianças já estão alfabetizadas, pode-se focar em atividades que dão mais autonomia em relação à leitura e à escrita, como a entrevista", sugere Eliane. A atividade proporciona uma situação comunicativa em que os alunos precisam escrever um texto de gênero específico para leitores reais e que será publicado no mural ou boletim da escola.

13. Língua Portuguesa (5ªa 8ª): gramática como uma ferramenta
É importante não separar o estudo das regras da língua da leitura e produção escrita. "A reflexão sobre os mecanismos da língua produz um aprendizado mais consistente quando é feita misturada ao ler e escrever", afirma o selecionador do Prêmio Victor Civita Ricardo Barreto. Para envolver a garotada no ensino da gramática, um bom caminho é associá-la a situações concretas. Transformar um texto formal em coloquial, comparando as palavras e as estruturas que foram alteradas, é um bom exercício. Escrever uma reclamação a uma autoridade e, em seguida, contar o fato a um amigo, também por carta, é outra
opção. "A idéia é levar o aluno a perceber as possibilidades da língua sem ter de decorar regras", diz Barreto. Ele destaca mais uma estratégia: fazer os estudantes pesquisarem as diferenças entre textos de diversos gêneros, como o de divulgação científica, a crônica e a notícia. Durante a leitura, eles acabarão comparando os elementos gramaticais utilizados em cada um. "Por fim, o professor pode solicitar ao aluno que escreva sobre o que aprendeu. Essa prática também estimula a reflexão sobre a língua."

14. Língua Estrangeira: as palavras precisam de contexto
Ninguém esquece sua língua materna quando aprende uma língua estrangeira. O que acontece é bem o contrário: quanto mais o aluno utiliza o conhecimento que adquiriu em sua vivência e sobre o próprio idioma, melhor entende uma segunda língua. Por exemplo: certa vez uma empresa lançou uma campanha publicitária com o slogan Put a tiger in your tank. "Para entender a mensagem, não basta saber o significado de cada palavra. É preciso conhecer uma série de elementos prévios", afirma a selecionadora do Prêmio Victor Civita Celina Bruniera. "Ajuda, por exemplo, conhecer as características do texto publicitário e saber que o tigre representa força e agilidade e que é o símbolo de uma distribuidora de combustível." Outro exemplo: lendo a palavra engaged isolada, o aluno terá mais dificuldade de entender seu sentido do que se vê-la na fechadura da porta de um banheiro público. "Se disserem a ele que, ao girar a fechadura, a palavra desaparece e, em seu lugar, surge vacant, será mais fácil concluir que vacant significa vago e engaged ocupado." Celina ressalta, no entanto, que, ao tentar tornar o ensino interessante, muitos professores se esquecem dos gêneros textuais e abusam de atividades lúdicas sem contextualização. Disso surgem palavras cruzadas e joguinhos que só ajudam a decorar palavras.

15. História: de olho no presente para transformar o futuro
Estudar história local com a turma é uma prática muito comum e pode ser uma experiência importante e enriquecedora desde que o resultado não se torne uma mera coletânea de curiosidades, hábitos e causos sobre o lugar e seus moradores. Por isso, ao pensar nos conteúdos que serão abordados durante o ano, é preciso levar em conta as respostas para algumas perguntas que você deve fazer a si mesmo: posso com isso contribuir para transformar minha região? Em que esse assunto ajudará meu aluno em sua vida diária e no seu processo de formação como cidadão? Como fazer com que ele tenha uma aprendizagem significativa? "Em cada contexto social, político e geográfico as respostas são diferentes. Portanto, só o professor tem reais condições de respondê-las e de formular as melhores propostas didáticas", diz o selecionador do Prêmio Victor Civita Daniel Helene. "O importante é levar os alunos a enxergar a realidade com um olhar crítico." No norte do Maranhão, por exemplo, algumas empresas usam mão-de-obra infantil. Por que não estudar a história local para compreender essa problemática? Em alguns municípios de Rondônia, na fronteira com a Bolívia, muitos estudantes discriminam os colegas vindos do país vizinho. Estudar a formação dessas cidades é um caminho para combater o preconceito. Ações como essas, baseadas em problemas que exigem solução imediata, tornam o ensino de História dinâmico.

16. Geografia: ela não está só nos mapas mas também no cotidiano
Para que essa disciplina faça sentido desde a Educação Infantil, uma boa seqüência de conteúdos é fundamental. Caso contrário, conceitos como ordem, hierarquia e proporção — importantes para a área — não serão assimilados pelas crianças. Segundo Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita, as primeiras noções de Geografia são adquiridas ainda na pré-escola. Para que a criança aprenda cartografia, por exemplo, deve-se partir do conhecimento prévio que cada uma delas possui. "Para calcular uma distância, os alunos podem usar objetos de diferentes tamanhos, passadas, o palmo ou um barbante", exemplifica. Dessa forma, ao chegar à 1ª série, eles já adquiriram conhecimento sobre espacialidade e hierarquia. Daí em diante, brincadeiras e jogos ajudam. No futebol, conhecer as posições dos jogadores faz a turma assimilar noções de perto, longe, ao lado, fora, dentro e lateral direita e esquerda. De 5ª a 8ª série, é hora de usar os mapas como fonte de informação para o estudo do mundo em que vivemos. Os alunos devem estudar como se produz a cartografia, quais são suas fontes de informação e qual o papel das cores, dos números e dos símbolos nos mapas.

17. Educação Infantil: o segredo é a autoconfiança do professor
Ouve-se muito que o professor de creche e de pré-escola não pode ser autoritário e que deve se basear no interesse da turma. Mas o verdadeiro responsável pela definição dos temas e das atividades a ser desenvolvidas é ele mesmo. Deixar a cargo dos alunos essa escolha não é sinônimo de liberdade nem demonstra uma postura pedagógica avançada. "O professor precisa conhecer o modo como as crianças aprendem e como se desenvolvem e levar isso em conta na hora de planejar cada aula", afirma a selecionadora do Prêmio Victor Civita Regina Gomes Sodré. Segundo ela, deve-se compartilhar com as crianças algumas etapas do trabalho — pois isso também ensina a estudar e a planejar —, mas sem deixar que elas tomem todas as decisões. Na construção de uma maquete, por exemplo, vale uma conversa com os alunos sobre o material a ser utilizado e sobre o que será representado, além de fazer com eles um cronograma, que será utilizado ao longo do trabalho. Esta é a melhor maneira de envolver as crianças e garantir o interesse pela aula: escolher temas adequados à faixa etária, que sejam relevantes do ponto de vista cultural, estejam relacionados ao local em que a escola está inserida e sejam propostos de forma instigante.

18. Educação Física: o programa vai além do conteúdo esportivo
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as aulas de Educação Física devem trazer discussões sobre assuntos como ética, cidadania, respeito às diferenças e cooperação. O cuidado constante com essas questões é essencial e se aplica até mesmo durante um campeonato de futebol. Sempre os escolhidos para formar os times são os mais hábeis e competitivos. Ficam para trás aqueles que, por algum motivo, têm dificuldade para jogar. "Cabe ao professor discutir o problema claramente e perguntar por que foi escolhido este e não aquele aluno", afirma Paulo Henrique Nilo Monteiro, selecionador do Prêmio Victor Civita. "Essas respostas vão permitir a ele trabalhar a questão das diferenças, que não se restringem às habilidades físicas, mas que são também socioeconômicas e culturais." Discussões desse tipo podem fazer parte da vivência diária dos alunos. "Não adianta apenas falar sobre as diferenças e continuar propondo somente atividades clássicas, como os jogos esportivos", afirma Monteiro. Para ele, uma boa alternativa é trabalhar com os chamados jogos cooperativos, em que são valorizados elementos como aceitação, envolvimento, colaboração e diversão. "Joga-se com o outro e não contra o outro. Para alcançar os objetivos é preciso esforço e dedicação."

19. Ciências: sem a dúvida, a turma não avança no conhecimento
"A dúvida é, por excelência, o motor da ciência", afirma Maria Terezinha Figueiredo, selecionadora do Prêmio Victor Civita. "O questionamento deve fazer parte da aula do início ao fim." Em classe, enquanto os assuntos são trabalhados, você pode estimular os alunos a fazer também suas perguntas. Ao estudar a fotossíntese acompanhando a germinação de alguns feijões, por exemplo, experimente questionar a turma: o que tem dentro da semente? Por que comemos feijão? "Quando o professor estimula o aluno a elaborar perguntas, está instigando sua capacidade de enxergar o feijão de um jeito diferente do que é apresentado ali", afirma. A dúvida leva a criança a uma ação investigativa sobre o problema, aproximando-a do conhecimento. "Sem reflexão e investigação, a ciência não progride. Como pesquisar se não há algo a descobrir?", indaga Maria Terezinha. Ao se questionar, a criança verá que há inúmeras coisas que a ciência ainda não desvendou. "O professor precisa mostrar que muitos conceitos hoje aceitos são passíveis de mudança, pois a ciência é dinâmica."

20. Artes: uma disciplina que também se ensina e se aprende
As aulas de Artes não dependem do talento ou da sensibilidade dos alunos. A disciplina funciona como qualquer outra: existe um conteúdo, que pode ser ensinado — e aprendido por todos. Segundo a consultora Zá Marisa Szpigel, de São Paulo, um bom caminho é mesclar a visão tradicional do ensino da matéria (em que o estudante baseia seu trabalho em modelos já prontos) com a menos convencional (em que o professor valoriza a espontaneidade da criança para criar). Com base nessa interação, o professor propõe modelos e também cria situações para que o aluno utilize as próprias idéias para transformar as referências que possui. Ele pode, por exemplo, apresentar uma pintura famosa como referência. Ao pintar, a criança não deve, no entanto, fazer uma cópia fiel ou dominar as mesmas técnicas que o artista. O que vale é a criatividade. O aluno define quais materiais usar, se prefere trabalhar sozinho ou em grupo e quanto tempo necessita para as tarefas. Essas oficinas dão ao professor a chance de apresentar os conteúdos e ao mesmo tempo explorar as capacidades dos alunos sem cobrar deles uma produção artística primorosa. Todos têm a mesma oportunidade de criar, a seu modo, sem ser comparados. "Ao propor ao aluno desenhar uma paisagem, não se deve dizer de que modo ele fará isso ou que tom de verde usará na grama", recomenda Zá.


Bibliografia

A prática do planejamento participativo, Danilo Gandin, Ed. Vozes

Avaliação nas práticas de ensino e estágios, Zelir Salete Busato,

Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, Delia Lerner, 128 págs., Ed. Artmed,

O jogo do contrário em avaliação, Jussara Hoffmann, Ed. Mediação.

Planejamento em destaque: análises menos convencionais, Maria Luisa M. Xavier, Ed. Mediação

Ser professor é cuidar que o aluno aprenda, Pedro Demo, 88 págs., Ed. Mediação


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