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Esta iniciativa consite em ações que possibilitem momentos de reflexão e construção pedagogica, abrangendo ainda propostas significativas para a prática cotidiana do educadores. De acordo com o contexto escolar e vivências as ideias e sugestões podem ser adequadas as necessidades reais nas expectativas de educadores e educandos
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4 de jan. de 2014

Artigo - EDUCAÇÃO INFANTIL

REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL:

DAS POSSIBILIDADES ÀS NECESSIDADES

Marilda Bruno
Úrsula Heymeyer

Resumo

Este artigo focaliza as possibilidades e necessidades educacionais especiais de crianças com deficiências na educação infantil. Discute alguns aspectos da política nacional, diretrizes e projeto pedagógico para inclusão de crianças com necessidades especiais em creches e pré-escolas. Tem por objetivo analisar e refletir o currículo, as adaptações e a prática pedagógica na perspectiva da educação inclusiva.
Palavras-Chave: inclusão, educação infantil, projeto político-pedagógico e necessidades educacionais especiais.

ABSTRACT

This paper focuses impaired children’s capabilities and educational special needs.  It approaches some aspects of the national politics of education, some directions and a pedagogical project for inclusion of children with special needs in nurseries and preschools.  It intends to analyze and reflect about the curriculum, the adaptations and  the pedagogical practice in the perspective of inclusive education.
Keywords:  Inclusion, children’s education, pedagogical profect and education special needs.

INTRODUÇÃO


O conceito de Educação Infantil como direito social, é relativamente recente na realidade educacional brasileira, pois, as crianças de 0 - 6 anos adquiriram, com a Constituição de 1988, o direito de serem educadas em creches e pré-escolas, na sua comunidade. O caráter reducionista do assistencialismo, voltado à prevenção da carência, da doença, da fome, como forma de compensar as mazelas sociais, foi assim rompido.
A Constituição e a LDB/96 Lei de Diretrizes e Bases da Educação, representam um grande avanço conceitual, colocando a educação infantil como primeira etapa da educação básica, que tem por finalidade o desenvolvimento integral da criança de 0-6 anos, com a promoção dos aspectos físicos, psicológicos, sociais, intelectuais e culturais.
Embora o avanço dessa idealização, muitos municípios ainda não se organizaram para formulação de política e projeto pedagógico que integrem o cuidar e valorizem a educação como forma de socialização, autonomia moral, desenvolvimento de competências e participação na vida cultural da comunidade.
Significativo avanço da LDB/96 é a oferta de educação para crianças com necessidades educativas especiais entre 0 - 6 anos, em Centros de Educação Infantil, com serviços de apoio especializado, desenvolvidos no ensino regular, quando necessários (art.58).
O Referencial Curricular de Educação Infantil 1998 constitui-se em um conjunto de referências e orientações didáticas, trazendo como eixo do trabalho pedagógico: “o brincar como forma particular de expressão, pensamento, interação e comunicação infantil e a socialização das crianças por meio de sua participação e inserção nas mais diversificadas práticas sociais, sem discriminação de espécie alguma (p.13).
Nessa perspectiva, o grande desafio é a “inclusão da diferença”. Isto significa assegurar o atendimento às necessidades básicas, de desenvolvimento sócio-afetivo, físico, intelectual e, ao mesmo tempo, garantir o avanço na construção do conhecimento, mediante procedimentos didáticos e estratégias metodológicas adequadas às necessidades de todas as crianças.
Incluir alunos com deficiências ou necessidades educativas especiais no sistema de educação infantil não requer um currículo especial, mas, ajustes e algumas modificações curriculares que propiciem o avanço no processo de aprendizagem desses alunos. Assim, discutiremos neste artigo as possibilidades e necessidades das crianças com necessidades educativas especiais, o eixo curricular, a prática pedagógica, as organizações e adaptações didáticas para a construção do projeto pedagógico, tendo em vista a efetivação da inclusão na educação infantil.

A CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA: DAS POSSIBILIDADES ÀS NECESSIDADES


As crianças com qualquer deficiência, independente de suas condições físicas, sensoriais, cognitivas ou emocionais são crianças que têm necessidade e possibilidade de conviver, interagir, trocar, aprender, brincar e serem felizes, algumas vezes, de forma diferente. Essa forma diferente de ser e agir é que as torna ser único, singular.
Estudos acerca das possibilidades cognitivas de crianças com deficiência mental e paralisia cerebral, como os de Inhelder (1963), Moreno & Sastre (1987), mostram oscilações e ritmos diferentes no processo de construção da inteligência dessas crianças. Evidenciam esses estudos que os programas das escolas especiais, muitas vezes, centram-se nas limitações, nos déficits, nas impossibilidades e não aproveitam as potencialidades e os recursos que esses alunos dispõem, para que  suas possibilidades intelectuais e de adaptação ao meio sejam aumentadas.
Investigações recentes levantam a hipótese de que a deficiência mental não se origina apenas no déficit estrutural, mas também, na capacidade funcional da inteligência. Scarnhont e Buchel (1990) afirmam que essas pessoas apresentam pouca habilidade para problemas de generalização da aprendizagem e funcionamento da memória prejudicado. Entretanto, as estratégias de memória, imagem mental e categorização podem ser melhoradas nos alunos com deficiência mental, mas não treinadas mecanicamente. Pesquisas de Paour (1988) e Mantoan (1997) enfatizam que o funcionamento intelectual deficitário pode ser ativado por ajudas que podem propiciar maior mobilidade cognitiva.
Para isso, torna-se essencial uma avaliação adequada à cada criança, visando conhecer as formas de interação e comunicação que utilizam, a qualidade de experiências que possuem, as possibilidades de funcionamento, os níveis diferenciados, as estratégias de ação e pensamento. Verificar os desafios, as necessidades, os conteúdos e atividades que podem modificar as possibilidades de funcionamento e produzirem respostas qualitativamente melhores e mecanismos de adaptação ao meio.
Fundamentadas nesses princípios, as Diretrizes Nacionais de Educação Infantil para Educação Especial (2001) recomendam a inclusão de crianças com deficiência em  programas de creche e pré-escola que tenham por  objetivo o desenvolvimento integral, o acesso à informação e ao conhecimento historicamente acumulado, dividindo essa tarefa com os pais e  apoio dos serviços da comunidade.
Com o movimento da inclusão, todas as crianças, com algum tipo de deficiência ou retardo no seu desenvolvimento, passam a ter direito aos serviços educacionais disponíveis na sua comunidade. Staimback (1999), Hewward (1996), Cook, Tessier e Klein (1996), enfatizam a importância de se oferecer às crianças com deficiência, mesmo severa, o mais cedo possível, um sistema inclusivo de educação, que atualmente é tido como o mais benéfico e eficiente dentro da educação especial.
Nesse sentido, o sistema educacional brasileiro ainda não se modificou o suficiente para atender às especificidades e necessidades educativas dos alunos com deficiências graves. Em virtude disso, o Referencial Curricular Nacional (1998) e as Estratégias e Orientações para a educação de  crianças com NEE na Educação Infantil (2001)  recomendam o trabalho conjunto, a parceria e apoio dos serviços especializados para avaliação, atendimento às necessidades específicas e orientação para adaptações e complementações curriculares,  visando o acesso desses alunos ao currículo desenvolvido na escola comum.
É importante observar que a inclusão de alunos com deficiência não depende do grau de severidade da deficiência ou nível de desempenho intelectual, mas, principalmente, da possibilidade de interação, socialização e  adaptação do sujeito ao grupo, na escola comum. E esse é o maior desafio para a Educação hoje: modificar-se e aprender a conviver com dificuldades de adaptação, gostos, interesses e níveis diferentes de desempenho escolar.

O CURRÍCULO E A ABORDAGEM PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL


A construção de uma pedagogia para educação infantil enfatiza o direito de ser criança, poder brincar, viver experiências significativas de forma lúdica, informal e o direito de ir à escola e aprender de forma mais sistematizada. Esse caminho busca a superação da dicotomia entre tratamento - assistência, que ainda vigora em muitas instituições de ensino especializado.
Assim, “educar” significa: propiciar situações de cuidado, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito, confiança, e  o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. “Cuidar” significa: ajudar o outro a se desenvolver como ser humano,  valorizar e ajudar a desenvolver capacidades (RCEI, 1998, p.23,24).
Para a inclusão de crianças com necessidades educativas especiais, em creches e pré-escolas, há necessidade de professores empenhados na interação, acolhida e escuta dessas crianças; interessados em compreender suas necessidades e desejos. Disponíveis para interpretar suas formas de expressão e comunicação que, muitas vezes, diferenciam-se das demais crianças da mesma faixa etária. E, principalmente, professores desejosos de querer ajudá-las.
Kuhlmann, in Faria (1999), analisando a educação infantil e o currículo, coloca: tomar a criança como ponto de partida da proposta pedagógica exigiria compreender que para ela conhecer o mundo envolve o afeto, o prazer, o desprazer, a fantasia, o brincar, o movimento, a poesia, as ciências, as artes plásticas e dramáticas, a linguagem, a música e a matemática de forma integrada, pois a vida é algo que se experimenta por inteiro.
Essa mesma proposta pedagógica e organização de currículo são essenciais para as crianças com qualquer deficiência; não há necessidade de um currículo especial, há sim, necessidade de ajustes nos objetivos, adaptações nos conteúdos e atividades, avaliações diferenciadas, para que esses alunos possam experimentar a vida por inteiro.
A organização e estruturação do currículo, na Educação Infantil, compreende dois eixos de experiências: formação pessoal e social (identidade, autonomia, brincar, movimento e conhecimento de si e do outro) e conhecimento do mundo (diferentes formas de linguagem e expressão, artes, música, linguagem oral, escrita e matemática, conhecimento da natureza e sociedade).
Kishimoto (2000), apontando os problemas e perspectivas da educação infantil, coloca que a inclusão de brinquedos no interior da escola requer a organização de brinquedos de forma peculiar, sem sofisticação, adaptada aos interesses e necessidades das crianças e que favoreça a recriação da brincadeira, a cooperação e a expressão da criança. Sugere, ainda, o uso das linguagens expressivas de forma integrada: artes visuais, plásticas, música, dança, teatro, movimento e literatura infantil, que devem ser enfatizadas na prática pedagógica da Educação Infantil.
Essas reflexões são importantes e nos levam a priorizar o brincar, a conversa, a literatura e a arte, como forma de prazer, de interação, possibilitando a expressão de sentimentos, trocas significativas de aprendizagem; e, não como conteúdos  estruturados de ensino ou com objetivos terapêuticos como ainda são utilizados em algumas escolas.
Neste sentido, a adequação da proposta pedagógica, para atender as necessidades específicas das crianças com deficiência, na educação infantil, precisa valorizar a construção do sistema de significação e linguagem, a expressão oral e as diferentes formas de comunicação alternativas e de expressão. Isto possibilita a independência e o desenvolvimento da autonomia moral e intelectual.
Ter alunos com diferentes níveis de desenvolvimento e estilos de aprendizagem é uma situação que pode apresentar dificuldades iniciais, angústias, conflitos, desequilíbrios mas, possibilita ao professor, aproveitar essas diferenças para promover situações de aprendizagem que provoquem desafios, problematizações. Isso deve levar a escola à  reflexão conjunta, motiva e impulsiona buscas, trocas positivas de interação, de ajuda e cooperação para resolução de problemas no cotidiano escolar.

O PROJETO DE INCLUSÃO E A PRÁTICA PEDAGÓGICA


O relativismo pedagógico e cultural acerca da diversidade, a simples constatação ou aceitação das diferenças e a oportunidade de acesso à classe comum, não contribuem de forma consistente para a elaboração do projeto pedagógico e nem asseguram a inclusão escolar dos alunos com necessidades educativas especiais.
Para isso, faz-se necessária uma análise crítica das relações inter e intra-pessoais vividas na escola: modificações espaço-temporais, didático-pedagógicas e organizacionais que garantam a promoção da aprendizagem e adaptação desses alunos ao grupo.
A proposta pedagógica, numa visão construtivista do conhecimento, tem no aluno e nas suas possibilidades, o centro da ação educativa. Assim, o processo pedagógico é construído a partir das possibilidades, das potencialidades, daquilo que o aluno já dá conta de fazer. É isto que o motiva a trabalhar, a continuar se envolvendo nas atividades escolares, garantindo, assim, o sucesso do aluno e sua aprendizagem.
O conteúdo e as atividades devem levar em conta o princípio da aprendizagem significativa: atividades que partam de experiências positivas para os alunos,  dos interesses, dos significados e sentidos atribuídos pelos mesmos. Para isso, há necessidade de cooperação e troca com a família, que informa sobre os gostos, preferên-cias, rejeições, vivências e informações que o aluno possui.
Dessa forma, a adaptação curricular é concebida como um conjunto de procedimentos que visam oferecer experiências de aprendizagem adequadas aos diferentes níveis e possibilidades de comunicação, motoras, cognitivas, sócio-emocionais e de vida diária. É a escola que se modifica para que o aluno obtenha êxito na aprendizagem e adquira conhecimento.
Essa é uma tarefa que deve ser compartilhada entre o professor do ensino regular e do especial. Tem este último a função de ser mediador e articulador do projeto de inclusão. A participação e cooperação dos pais, terapeutas ou serviços especializados são fundamentais para que se atinja o objetivo de promoção do desenvolvimento global e o avanço no processo de aprendizagem desses alunos.
O êxito no processo de aprendizagem depende também de uma pedagogia de projetos, atividades que possam ser desenvolvidas coletivamente, de maneira que as dificuldades sejam diluídas e superadas pela qualidade de solicitação do meio, pela ajuda do professor e cooperação  dos colegas não-deficientes.
Selecionar atividades que tenham significado, relação com a vida prática e experiência dos alunos leva a pequenas modificações e adaptações nos objetivos, conteúdos e avaliação; de forma que, os alunos com necessidades educativas especiais, tenham a oportunidade de participar, de se envolver, de aprender e trabalhar junto com seus colegas no ensino regular.
Nessa proposta, os objetivos gerais, os conteúdos, os temas e as atividades são as mesmas, os objetivos específicos, as estratégias didático - metodológicas, os materiais, os recursos e equipamentos é que se diferenciam. As atividades e as formas de avaliar são diferenciadas para todos.
As crianças com deficiências, como as demais, apresentam particularidades, níveis heterogêneos de capacidade, necessidades educativas diversificadas, e requerem, em consequência disso, uma avaliação individualizada. Por isso, torna-se indispensável uma avaliação criteriosa e completa de cada criança, com orientações práticas e objetivas de toda a equipe que a acompanha, visando possibilitar mecanismos funcionais e de melhor aprendizagem.
Os procedimentos didáticos deverão ser discutidos, construídos e reformulados, em equipe, ao longo do ano. Torna-se importante, então, o professor registrar os pontos fortes e as dificuldades que a criança encontra para realizar as atividades, buscando, em conjunto com os demais profissionais, estratégias metodológicas para superação das eventuais dificuldades.
A professora precisa compreender que a criança com deficiência pode ser mais lenta para agir e dar respostas, por isso, é preciso dar mais tempo para que ela se expresse e realize as atividades. Dessa maneira, devem-se buscar formas positivas de interação e trocas  comunicativas com a criança, tais como: toque, olhar, gestos, posturas, palavras adequadas ou símbolos que expressem a situação.
Proporcionar atividades variadas, como fazer e construir coisas, brincadeiras com o corpo, objetos, jogos, histórias, teatro, música, modelagem, desenho, que permitam adquirir as noções de tempo, espaço, causalidade é muito importante; como também formar conceitos de classe, série, número, por meio de atividades de construção e reconstrução, de forma lúdica e prazerosa. Para isto, as atividades devem ter começo, meio e fim e serem adaptadas à possibilidade de  comunicação, compreensão e ação da criança.
Para que a criança participe dessas atividades pedagógicas ela necessita de um professor disponível para dialogar e efetuar a mediação, tanto em termos de comunicação, como de ajuda física, na realização das brincadeiras e tarefas. Daí, a necessidade de os grupos, na Educação Infantil, serem pequenos; na creche (até 10 crianças) e na pré-escola ( no máximo vinte), para que haja a inclusão da criança com necessidades educativas especiais.
Na Educação Infantil, a organização do tempo e espaço envolvem todas as atividades de cuidado, de brincadeiras ou  de aprendizagem dirigida: no parque, na roda de conversas, na roda de histórias, na hora do faz-de-conta, nas oficinas de artes, música e na hora do lanche, todas essas situações requerem planejamento cuidadoso, para que a criança possa interagir, comunicar-se espontaneamente, ter  uma ação funcional melhor,  brincar e aprender.

CONCLUINDO


A Educação Infantil, não só de crianças com deficiências, é uma situação educativa complexa que exige uma análise lúcida e crítica, acerca dos contornos do contexto escolar, das condições concretas existentes, dos conteúdos propostos e das estratégias e alternativas metodológicas que atendam as necessidades de desenvolvimento, de interação, comunicação, autonomia, socialização e participação nas brincadeiras e atividades lúdicas.
A implementação de um projeto para educação inclusiva demanda vontade política, planejamento e estratégias para capacitação conjunta e  continuada dos professores do ensino regular e especial, dirigentes e equipes técnicas dos centros de Educação Infantil, visando construir e efetivar uma prática pedagógica que lide com níveis de desenvolvimento e processo de aprendizagem diferenciados para todas as crianças.
Um projeto educativo para inclusão na Educação Infantil vai além das atitudes e práticas sociais não discriminatórias. Compreende a participação da família e dos profissionais das diferentes áreas do conhecimento para as adaptações necessárias e, principalmente, compromisso político e ações integradas de educação, saúde e assistência social, para que as necessidades educativas específicas sejam atendidas.
Incluir é possível e desejável por muitas crianças e suas famílias. O importante é a escola não ter medo de começar e buscar ajuda e cooperação para construir uma prática pedagógica e social melhor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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TUPY, Tania Maria e DON PRAVETTONI, Giancarlo.(org.). Discurso sobre Comunicação Alternativa. São Paulo: Memnon, 1999.

Marilda Moraes Garcia Bruno é Doutoranda em Educação pela UNESP - Marília/SP, Consultora em Educação Especial, delegada do ICEVI - Conselho Internacional de Educação de Pessoas com deficiência visual e múltipla, Região Centro-Oeste.
Úrsula Heymeyer é educadora especializada em Paralisia Cerebral, Presidente da Associação de Paralisia Cerebral - São Paulo e Supervisora do programa de Intervenção Precoce da AACD/SP.

19 de mai. de 2013

Quando eles descobrem a sexualidade


A fase da sexualidade é apenas mais uma e faz parte do desenvolvimento dos pequenos tanto quanto engatinhar, andar ou falar. E a melhor maneira de passar por ela é sendo verdadeiro com eles, como sempre...

A questão da sexualidade na infância é um assunto bastante delicado, que deixa muitos pais em pânico, sem saber como lidar com ela.

Conforme a criança vai crescendo e começa a fazer certas perguntas ou agir de uma maneira diferente, os pais logo se perguntam: será que devo falar sobre sexualidade com meu filho, posso tomar banho junto com ele ou é melhor evitar ficar nu na frente da criança? Como devo agir quanto à masturbação?

O grande problema é que, às vezes, os pais ou educadores encaram a sexualidade de uma forma distorcida. Porém a sexualidade infantil faz parte do desenvolvimento normal da criança, é apenas uma função como tantas outras, e é preciso encará-la da forma mais natural possível.

A educação sexual acontece de qualquer maneira. Mesmo que os pais não conversem com a criança a respeito ou não respondam às suas perguntas a cerca do assunto, a criança vai desenvolver essa função. Mas é a partir da atitude dos pais que eles aprendem se o sexo é certo ou errado, bonito ou feio. Portanto, o melhor é não fugir do assunto.

Segundo a psicóloga Fernanda Roche, as respostas devem ser simples e claras, não havendo necessidade de responder além do que lhe for perguntado. "A própria criança dará os sinais do momento mais adequado de saber cada coisa", afirma ela.

E não adianta inventar mentirinhas bobas para a criança, como dizer que é a cegonha quem traz o bebê ou que eles são comprados no hospital. Elas são muito espertas e logo descobrem a verdade e, assim, os pais ficam desacreditados pelos filhos.

A psicóloga Fernanda sugere falar a verdade, introduzindo neste momento palavras científicas (pênis, vagina) para mostrar a seriedade do assunto, evitando assim gozações, malícia e palavras de duplo sentido.

Com crianças menores de cinco anos, é preciso ser mais claro e preciso, já as maiores podem compreender uma informação mais elaborada. Não é preciso ser um especialista para dar uma informação suficientemente boa. O fato é que estaremos no caminho certo se nossos filhos pensarem: "Vou perguntar a mamãe e papai que eles sempre me respondem".

Quanto ao fato de deixar a criança dormir na cama dos pais, a psicóloga deixa bem claro: não é recomendável que o filho tome o lugar de um dos pais ausente à cama, pois erotiza a criança de forma inadequada. "Elas fazem fantasias que não são benéficas ao desenvolvimento emocional. É preciso também dar a noção de privacidade aos filhos".

Ela diz ainda que não há nenhum problema dos pais ficarem nus na frente dos filhos, contanto que ajam de uma maneira natural e espontânea, permitindo que as crianças tenham uma percepção das diferenças entre os sexos. A curiosidade diminuirá com o tempo e, a partir dos seis ou sete anos, a criança começará a ter pudor.

Segundo a profissional, a auto-exploração ou masturbação é outra experiência fundamental para a sexualidade saudável. Essa experiência da auto-exploração só trará prejuízos se for punida ou se a criança sentir-se culpada por esta atividade natural.

A recomendação de Fernanda é que os pais ignorem ou mostrem compreender a criança. "Se a criança fizer isto na sua frente ou na de outras pessoas e você ache inadequado, diga que entende ser gostoso, mas que aquele não é o local certo, ensinando-lhe a noção de privacidade", aconselha ela.

Dicas:
0 a 3 anos
As crianças são curiosas e suas dúvidas em relação à sexualidade podem começar bem cedo. É preciso estar sempre preparado para responder às suas perguntas.
3 a 6 anos
É nessa fase que as crianças manifestam interesse pelos os órgão genitais passam a explorá-los, começando a desenvolver sua sexualidade.
6 a 9 anos
Lembre-se que se a criança estiver se masturbando em público ou excessivamente ela pode estar se utilizando deste recurso para chamar a atenção dos pais para algum problema.

Fonte: http://www.espacomorumbi.com.br/emorumbi/noticias/artigo.php?contoid=102

18 de mai. de 2013

Sexualidade infantil - Por Fernanda Roche - Psicóloga Clínica

Procurarei colocar para vocês alguns pontos importantes sobre sexualidade infantil, baseando-me em minha prática clínica no consultório e com grupos de mães, onde sempre aparecem dificuldades nesta área, seja através de pais aflitos com seus filhos ou mesmo de adultos que trazem algumas questões de ordem sexual que se originaram na infância e adolescência.


Já faz quase um século que Freud descreveu a sexualidade infantil, escandalizando a sociedade daquela época. Desde então, muito se estudou e falou sobre este assunto e, mais recentemente, com a inclusão da educação sexual nas escolas, os pais estão se dando conta de que as antigas fórmulas de "se livrar" do problema já não funcionam mais. As crianças sofrem cada vez mais a influência da TV, de amigos, de parentes, de babás e empregadas, muitas vezes recebendo noções erradas e prejudiciais. Se nós, os pais, conseguirmos manter um canal aberto com nossos filhos, poderemos discutir e intervir no que não nos parecer correto. Freqüentemente temos dúvidas sobre o que responder e até onde responder às perguntas de nossos filhos. Queremos que nossos filhos sejam mais bem preparados do que fomos, e que vivam sua sexualidade de forma mais consciente, mas não sabemos como fazê-lo. É importante, primeiro, que nos remetamos às nossas próprias dúvidas a este respeito quando éramos crianças e a como teríamos gostado que tivesse sido nossa orientação. Desta forma fica mais fácil entender a curiosidade de nossos filhos. A sexualidade é uma coisa natural nos seres humanos, é uma função como tantas outras. Freqüentemente estimulamos a evolução de nossos filhos em vários aspectos (comer sozinhos, andar, ler...), mas com a sexualidade somos cuidadosos e até mesmo preconceituosos. A criança fica com a sensação de que faltam pedaços em seu corpo - elogiamos olhos, perninhas, cabelos e outros, mas não falamos em seus órgãos sexuais. Educação sexual é um processo de vida inteira: teremos tempo de melhorar o que não conseguirmos explicar da forma como gostaríamos. Não é fácil para pais que não foram educados desta forma em sua infância, mas o importante é tentar melhorar a educação que possam oferecer a seus filhos. É bom saber que, assumindo ou não a tarefa de orientá-los, conversando ou não, estaremos dando educação sexual. Dependendo da atitude dos pais, as crianças aprendem se sexo é bonito ou feio, certo ou errado, conversável ou não. Há até bem pouco tempo, dizia-se às crianças que elas teriam vindo trazidas pela cegonha, ou que haviam sido compradas no hospital, ou ainda que teriam brotado de uma flor, etc. Hoje, sabemos que não há necessidade de mentir às crianças, mesmo porque elas são muito mais espertas, recebem informações de várias fontes, e, portanto, estas "mentirinhas bobas" só servirão para nos desacreditar ante os nossos filhos. Não pode ser considerado feio falar de algo que é natural. O melhor a fazer é falar a verdade, introduzindo neste momento palavras científicas ( pênis, vagina) para que possamos mostrar a seriedade do assunto, evitando assim gozações, malícia, palavras de duplo sentido. Inicialmente, as dúvidas das crianças dizem respeito às diferenças anatômicas entre os sexos e ao nascimento propriamente dito. Elas fazem suas próprias teorias sexuais, hipóteses acerca de como os bebês vão parar nas barrigas de suas mães. Aos poucos, estas teorias vão sendo questionadas e surgem então as dúvidas a respeito de como são produzidos, enfim, os bebês. As respostas devem ser simples e claras, não havendo necessidade de responder além do que lhe for perguntado. Dar respostas insuficientes faz com que a criança pergunte mais e mais ou, ainda, que vá procurar as respostas em outras fontes nem sempre confiáveis; por outro lado, dar respostas extensas demais, do tipo "aula completa", também não é indicado, é preciso buscar respostas de acordo com o que a criança for solicitando. É importante ficar claro o que exatamente ela gostaria de saber, para que a medida da resposta seja suficiente. A própria criança dará os sinais do momento mais adequado de saber cada coisa. Alguns de vocês podem estar se perguntando: "Será que tanta informação não acabará por estimular na direção errada?", ou então pensar: "Eu não recebi educação sexual alguma e estou muito bem". Contrariando preconceitos, pesquisas mostram que crianças esclarecidas tendem a ser mais responsáveis e a adiar o início de sua vida sexual (até porque sua curiosidade foi devidamente saciada) até que amadureçam, possam fazer uso de anticoncepcionais e escolher o parceiro certo. As outras vantagens de conversar com os filhos sobre sexo desde as primeiras dúvidas são: aumentar a intimidade e a afetividade entre si; abrir caminhos para que se possa conversar sobre tudo; informar corretamente, reduzindo as fantasias e a ansiedade delas decorrente; e, por fim, prevenir futura gravidez indesejável e contaminações por doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis e a AIDS, entre outras. Muito importante será nossa atitude ao responder às perguntas: o tom de voz, a segurança nas informações, o fato de estarmos ou não à vontade, tudo isto é captado pela criança também sob a forma de informação. Há ainda a freqüente dúvida sobre quem deve falar com a criança. O ideal será sempre que o casal possa fazer isto junto, pois oferecerão visões diferentes e enriquecedoras, mas dependerá da identificação que a criança tiver com os pais ou com um deles em especial naquela fase da vida, ou, ainda, do temperamento de cada um. Pode ser mais fácil para um dos dois tocar neste assunto, evitando o "jogo do empurra". Ajudará muito o casal discutir claramente entre si antes de conversar com a criança. É possível que vocês se perguntem: "Que palavras usar?". Não é necessário ser especialista, mas acessível. À criança de menos de cinco anos, é preciso ser mais claro e preciso, já as maiores podem compreender uma informação mais elaborada. Não é preciso ser especialista para dar uma informação suficientemente boa. O fato é que estaremos no caminho certo se nossos filhos pensarem: "Vou perguntar a mamãe e papai que eles sempre me respondem". Se por acaso não puderem responder no momento, esclareçam qual é a dúvida e digam que responderão assim que puderem. Não finjam que "esqueceram" de responder. Se sentirem vergonha, digam. Pais humanos permitem uma maior identificação e autoconfiança. O abuso sexual é um assunto que geralmente gera desconforto, mas é fundamental que seja abordado nos dias de hoje, em que vemos os mais assustadores casos de perversão. O abuso geralmente é cometido por adulto pervertido ou criança mais velha que tenha sido abusada sexualmente. Para proteger nossos filhos, é preciso transmitir a eles a noção de que sexo não é feito entre criança e adulto ou criança mais velha, mas entre adulto e adulto, e que o amor melhora tudo porque torna mais completo. Segundo pesquisas, há alguns sinais mais claros de que houve abuso sexual com uma criança, que são a hiperexcitação, os pedidos à mãe para que brinque com seu órgão genital ou ao irmão ou coleguinha que coloque a boca em seu pênis / vagina , apatia generalizada, somados a sinais de medo. No caso de perceber que a criança apresenta medo, é preciso garantir-lhe proteção e não castigo. É preciso incluir sempre o amor ao passar estas informações às crianças. Às vezes ficamos tímidos em demonstrar intimidade em casa, diante de nossos filhos, e acabamos sem perceber por desvincular a noção de amor da de sexo, o que, em tempos de revistas, programas e outros apelos sexuais cada vez mais em evidência e à mão, acaba por contribuir para a banalização do sexo. Aos poucos, vai se tornando possível esclarecer que pode haver vida sexual sem gerar filhos. Dormir na cama dos pais é absolutamente contra-indicado; é necessário firmeza neste sentido. A cama dos pais pode ser o lugar perfeito para gostosas brincadeiras antes de dormir, ou ainda quando a família acorda pela manhã, mas não é recomendável que o filho tome o lugar de um dos pais ausente à cama, pois erotiza a criança de forma inadequada: elas fazem fantasias que não são benéficas ao desenvolvimento emocional. É preciso também dar a noção de privacidade aos filhos. Se a criança alegar medo, é preferível que um dos pais vá até a cama dela e a tranqüilize, voltando à sua cama em seguida. Sobre a nudez dos pais na frente da criança, o importante é buscar proceder da maneira mais espontânea possível, permitindo à criança a percepção das diferenças entre os sexos. É preciso usar o bom senso e a honestidade. A curiosidade diminuirá com o tempo, a partir dos seis ou sete anos a criança começará a ter pudor. O fundamental é ficar claro que a naturalidade permite uma visão saudável da sexualidade. O desenvolvimento da sexualidade humana começa com o contato físico, quando os bebês são segurados e acariciados. Os órgãos do sentido tem íntima relação com o centro sexual do cérebro e por isto a sucção ou o contato da pele provocam excitação nas crianças. Isto é necessário e natural que aconteça; não se deve privar o bebê de contatos corporais, o que não prejudicará nem tampouco estimulará inadequadamente a criança. A auto-exploração ou masturbação é outra experiência fundamental para a sexualidade saudável. A criança cedo aprende a brincar e a tirar prazer de seu próprio corpo, e isto faz parte de seu desenvolvimento tanto quanto engatinhar, andar ou falar. A experiência da auto-exploração só trará prejuízos se for punida ou se a criança sentir-se culpada por esta atividade natural. Cabe aos pais ignorar ou manifestar compreender o prazer que ela tira daquela experiência. Esta é apenas mais uma fase, e como tal tende a dar lugar a outras. Se a criança fizer isto na sua frente ou na de outras pessoas e você ache inadequado, diga que entende ser gostoso, mas que aquele não é o local certo, ensinando-lhe a noção de privacidade. É preciso ficar atento se a criança se masturba em público ou excessivamente. Ela pode estar se utilizando deste recurso para chamar a atenção dos pais para algum problema, que pode não ter nenhuma conotação sexual. Caso não consigam compreender sozinhos, peçam a ajuda de um profissional. Aquela antiga história de separar meninos e meninas em grupos diferentes no que se refere à sexualidade, estereotipando os papéis, também traz sérias implicações. Como se não bastasse o fato de negar o igual direito ao prazer no futuro sexual, é preciso saber que meninas passivas, educadas para a submissão, se tornam presas fáceis de abusadores sexuais; por sua vez, os meninos precisam ter espaço para demonstrar suas emoções, o que os prepara para ser pais afetivos. Os jogos sexuais infantis têm para a criança um sentido diferente daquele dado pelo adulto, e jamais deve acontecer com crianças de idades diferentes, para que não haja coerção. O aprendizado de palavrões é um fato comum entre as crianças a partir de quatro ou cinco anos. Em geral, repetem o que percebem ser proibido, embora não tenham a mínima idéia de seu significado. Em geral, esclarecer seu significado ajuda a criança a deixá-lo de lado e, mais uma vez, a aproxima de seus pais com quem poderão sempre contar para esclarecer suas dúvidas. Ensinar a criança que não é preciso imitar comportamentos inadequados desde pequena é extremamente importante, até para que futuramente ela não se sinta tentada, por coerção de grupos, a mostrar comportamentos que não sejam de sua livre e espontânea vontade, como fazer uso de cigarros, drogas e outros. Os meios de comunicação, que nos bombardeiam com programas de baixa qualidade, músicas erotizantes e danças de igual quilate, são hoje um grande impasse na educação de nossos filhos. Como evitar que a criança seja vítima desta superexposição inadequada do sexo e que assim se sexualize precocemente? O mais importante, atualmente, é que os pais tenham claro o tipo de orientação que desejam para seus filhos, e que lhes ofereçam outras opções de entretenimento. Buscar programas interessantes que estejam de acordo com a sua faixa etária, comprar discos infantis e roupas que estejam de acordo com sua idade são medidas que, se não evitam de todo, uma vez que a criança vive entre outras, ajudam a formar uma educação sexual mais adequada, garantindo-lhes no mínimo maior proteção. É preciso ainda que os pais fiquem atentos às mensagens contraditórias: estimular excessivamente as crianças no sentido do amadurecimento precoce, "queimando etapas", pode ser perigoso, pois elas podem perder o interesse por brincadeiras infantis, passando a imitar comportamentos adequados a "mocinhas e rapazinhos", o que inclui invariavelmente seus aspectos sexuais. Ao final desta exposição, talvez vocês percebam que poderiam ter feito melhor pela educação sexual de seus filhos, ou evitado algumas bobagens. Não devemos nos culpar por isto. Não nascemos sabendo e somos frutos da educação que tivemos. Assim como nossos pais, certamente fazemos o melhor que somos capazes, e será muito bom que possamos ter a oportunidade de repensar algumas situações e atitudes. Bibliografia: Heglen, Sten. Pedro e Carolina - Imago editora Suplicy, Marta. Papai, mamãe e eu -FTD Maldonado, Maria Teresa. Comunicação entre pais e filhos - Vozes editora. Pikunas, J. Desenvolvimento humano - Mc Graw Hill
Fonte:http://www.espacomorumbi.com.br/modules/news/article.php?storyid=105

4 de mai. de 2013


A Importância da Literatura Infantil


“A literatura infantil, antes tudo, literatura e, portanto, arte, contribui significativamente para o desenvolvimento e aprendizagem da criança. A relação de sentido desencadeada entre a criança e os contos de fadas, poesias, narrativas, fábulas e histórias infantis contribui para a formação da personalidade, valoriza os sentimentos, cultiva a sensibilidade, instiga a compreensão da realidade e principalmente consegue, através do brincar, projetar na criança o gosto pela leitura.” (1)


A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA INFANTIL PARA A APRENDIZAGEM
SIGNIFICATIVA DA CRIANÇA
Márcia Cecília de Oliveira Carregosa
Revista Letrando, v. 1
jan./jun. 2012
Revista ditada pelo Diretório Acadêmico de Letras da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (Brasil), em colaboração com a Fundación para la eSalud (Espanha). ISSN 2317-0735.

21 de abr. de 2013

Rotina e aprendizagens no berçário

Conheça o projeto desenvolvido pela professora Sílvia Ulisses de Jesus, uma das vencedoras do Prêmio Victor Civita 2010. Atuando na creche, uma etapa ainda muito pautada pelo assistencialismo, a professora conseguiu articular as duas dimensões mais importantes da Educação Infantil: o cuidar e o educar.

Educação Infantil> Creche - 0 a 3 anos> Identidade e autonomia


PROJETO
Creche: espaço de aprendizagem


Sílvia Ulisses de Jesus conseguiu articular as duas dimensões mais importantes da Educação Infantil: o cuidar e o educar. Para auxiliar os bebês a se conhecer e a explorar o mundo, ela planejou um conjunto completo de atividades: desenho, pintura, interação com o espelho e um tapete de sensações, músicas e imitação de gestos, movimentação pela sala e experimentação de sabores. Sílvia também aproveitou as oportunidades de educar nas atividades rotineiras, como a hora do banho, e estreitou o contato com as famílias, mostrando que a creche é um espaço de aprendizagem.





A adaptação ao berçário

No projeto 'Creche: Espaço de Aprendizagem', a educadora  fez um registro de todas as experiências de aprendizagem fundamentais para as crianças no berçário. Ela intercala anotações teóricas a registros práticos sobre o desenvolvimento de cada um dos bebês, em álbuns personalizados. Acima,  destaca o passo a passo para a adaptação dos pequenos.


Como Mateus adaptou-se

No álbum de Mateus, Silvia destaca a dificuldade dos primeiros momentos do menino no berçário, quando ele chorava e sentia falta da mãe. A educadora observa cada etapa da adaptação do bebê e registra no álbum.





As teorias do movimento

Nesta etapa do registro, Silvia aborda o desenvolvimento da capacidade dos bebês em reconhecer partes do corpo, sustentar-se sentados e depois em pé, até que desenvolvam formas de locomoção, como engatinhar, por exemplo.




A entrada no mundo da linguagem

Silvia teoriza sobre as diferentes linguagens a que os bebês precisam ter acesso, desde os primeiros meses de vida. Fala do desenvolvimento da oralidade e da linguagem corporal - seja pelos movimentos, imitações, gestos ou sinais emitidos pelos pequenos.




Conhecer diferentes linguagens

A educadora observa a capacidade do bebê em sorrir, chorar ou balbuciar quando demanda algo. Ela registra todos os avanços no álbum de Mateus e complementa o portfólio com fotos dos desafios propostos ao menino.

Primeiros contatos com a linguagem artística

Desde o primeiro ano, Silvia estimula as crianças para que tenham contato com a linguagem artística. Na foto, Mateus ensaia os primeiros 'desenhos', ao utilizar materiais seguros, em uma superfície plana, sob a orientação da educadora.



O comportamento alimentar de Mateus

A educadora observa o cotidiano de Mateus no berçário e registra os hábitos alimentares do garoto no álbum. Ela sabe exatamente de quais alimentos o menino gosta e conhece os motivos que fazem com que ele alimente-se bem ou não.



Experimentações

Silvia reuniu os bebês em um grupo, para que todos experimentem diferentes alimentos. Uma boa atividade para divertir e socializar os pequenos. Observe o cuidado com as mamadeiras, individuais e diferentes, para facilitar a identificação.




Hora do banho

Além de destacar a importância deste momento de higiene, Silvia aproveita a hora do banho para estimular diferentes sensações nos bebês, como explorar o próprio corpo ou aproveitar o contato com diferentes materiais e superfícies, tornando este momento uma grande e agradável brincadeira.



A importância do sono

Silvia destaca a importância dos momentos de sono na rotina do berçário. Ela sabe que a hora da soneca, assim como os rituais de ninar, variam entre os bebês. A educadora conhece bem cada um dos 12 bebês de quem cuida, No caso de Mateus, ela registra a necessidade de embalá-lo no carrinho para que ele durma bem.

Soninho bom...

Acima, Mateus dorme no berço. Manter objetos com significados especiais para o bebê, como a chupeta ou uma cobertinha, ajuda a garantir um sono tranquilo para os pequenos.


Tapete de sensações

Silvia confeccionou um grande painel de sensações afixado na parede do berçário. Cada elemento do 'tapete' acima possui uma textura diferente e alguns até emitem sons quando tocados. O objetivo é que os bebês entrem em contato com diferentes sensações. Um estímulo aos sentidos.


Caixa de sensações

Esta é uma das caixas de sensações das crianças da creche. Dentro dela são guardados objetos de estímulo aos diferentes sentidos, como chocalhos, bonecos, sachês e móbiles, confeccionados pela educadora junto das crianças - uma boa atividade para fazer com que os pequenos tenham contato com a linguagem artística e visual.

Chocalhos

Garrafas pet em miniatura servem como suporte para a confecção de chocalhos. Em um deles, Silvia colocou areia e no outro, grãos de milho. As garrafas foram bem sedadas, para evitar acidentes, e decoradas com tinta colorida, com a ajuda das crianças.


Móbile

Utilizando um CD antigo, Silvia propôs a criação de um móbile individual, com a foto de cada criança. Acima, o móbile de Mateus.




Cheirinhos

O olfato é outro sentido que precisa ser amplamente explorado desde o berçário. Por isso, a educadora confeccionou dois sachês - um com cravos e outro com canela. Ambos foram embalados em pedaços de tule e bem amarrados com fitas de cetim, para evitar que as crianças levassem à boca as partes pequenas.


RESUMO DO PROJETO

Atuando na creche, uma etapa ainda muito pautada pelo assistencialismo, a professora Sílvia Ulisses de Jesus conseguiu articular as duas dimensões mais importantes da Educação Infantil: o cuidar e o educar.
Para auxiliar os bebês a se conhecer e a explorar o mundo, ela planejou um conjunto completo de atividades: desenho, pintura, interação com o espelho e um tapete de sensações, músicas e imitação de gestos, movimentação pela sala e experimentação de sabores.
Sílvia também aproveitou as oportunidades de educar nas atividades rotineiras. A hora do banho, por exemplo, transformava-se no momento de conversar com os pequenos, de se aproximar pelo toque, de descrever o que iria fazer ("Vamos lavar os seus pés agora") e de cantar músicas.
Com um contato estreito com as famílias, a professora mostrava que a creche não era só um lugar para deixar as crianças durante o trabalho, mas principalmente um espaço de aprendizagem. "Graças a muito estudo, consegui criar condições favoráveis para que os pequenos se desenvolvam", conta ela.



Na rotina planejada, o espaço para aprender 

O cotidiano de uma creche tem de contemplar muitas propostas de trabalho: é preciso coordenar atividades de sala, das brincadeiras aos cuidados, garantindo momentos de aprendizagem de modo articulado. Por isso, o planejamento é fundamental. Programar-se de modo minucioso, levando em conta as particularidades de cada criança e se mantendo atento ao que ocorre à sua volta, é a melhor forma de garantir que os pequenos aprendam em grupo.

A professora Sílvia Ulisses de Jesus, da UMEI Pedreira Padre Lopes, em Belo Horizonte, sabia da importância de um trabalho com essas características ao elaborar o projeto Creche: Espaço de Aprendizagem, com o qual foi eleita Educadora do Ano no Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10, em 2010 (leia o quadro na última página).

Ela investiu num planejamento detalhado, feito ao longo do ano, que previa o desenvolvimento de competências específicas para cada um de seu grupo, formado por crianças de 4 a 18 meses. E obteve resultados: o projeto chamou a atenção dos selecionadores da premiação. "É difícil encontrar professores dessa etapa do ensino que trabalhem com tanta intencionalidade. Esse é o mérito do projeto da Sílvia. O viés assistencialista e a ideia antiquada de que as crianças não têm necessidades específicas ainda fazem com que muitos educadores só se preocupem com o cuidado, deixando a Educação em segundo plano", afirma Beatriz Gouveia, formadora do instituto Avisa Lá, em São Paulo, e responsável pela seleção de projetos da área de Educação Infantil.

Ciente das etapas do desenvolvimento infantil, Sílvia desenvolveu atividades para proporcionar uma multiplicidade de experiências para as crianças, visando fortalecer a autonomia, o conhecimento do corpo, a linguagem oral, a expressão de sensações por meio de falas e gestos e a expressão artística, entre outros.

O planejamento inicial foi feito antes do período de adaptação das crianças. Depois, nessa fase, ela observou as competências de cada um durante as atividades propostas para organizar uma programação. Ao planejar o eixo música, por exemplo, a professora observou como as crianças lidavam com brincadeiras que envolvessem cancões: conseguiam imitar? Participavam de jogos cantados? Se a avaliação mostrava que ainda não eram capazes disso, ela incentivava os pequenos com palmas e com o movimento dos lábios. Os que já estavam mais acostumados com músicas e participavam de rodas eram convidados a tocar instrumentos de brinquedo e variar o repertório musical. No portfólio de cada criança, ela registrava os avanços obtidos. O material servia de subsídio para que ela planejasse os próximos passos e elaborasse atividades desafiadoras.

É fundamental que o cuidado e a Educação caminhem juntos


Trabalhando com crianças em fases de desenvolvimento distintas, a professora Sílvia pensou nas especificidades de cada faixa etária. Os objetivos de aprendizagem para os pequenos de 4 a 8 meses eram diferentes daqueles pensados para os de até 12 meses e também para os com mais de 1 ano de idade.

A cada avanço, um novo desafio era proposto. Enquanto os mais novos eram estimulados a olhar no espelho para ampliar a consciência de si, por exemplo, os maiores, de 12 a 18, eram convidados a identificar os colegas e a si próprios em fotos. Quando a brincadeira envolvia explorar melecas e tintas, o desafio era incrementar novas cores e texturas, colocando areia para a mistura ficar mais áspera ou água para ficar mais diluída, por exemplo, a fim de proporcionar novas experiências (leia a atividade permanente). "Cada atividade desenvolve uma competência, e isso não ocorre da mesma maneira com todos. Por isso, é importante planejar pensando nas especificidades de cada um do grupo. Não dá para fazer uma lista única de objetivos para todas as crianças", explica Pryscilla Sugarawa, coordenadora pedagógica da ONG Ação Comunitária, em São Paulo.

Não era apenas nesses momentos de pintura ou brincadeira, porém, que o aprendizado ocorria. No banho, por exemplo, era hora de trabalhar o reconhecimento do corpo, com falas que estimulassem a criança e estreitassem os laços entre ela e a educadora. "Dizer que vai lavar o pé e a cabeça e anunciar as ações que vai realizar, sempre olhando no olho da criança, é essencial na construção de vínculos. Isso precisa ser estimulado sempre, até nas situações que parecem mais corriqueiras, mas que são importantes para que ela amplie seu conhecimento de mundo", explica Maria Cecília da Silva, doutora em Psicologia Clínica e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Para que o cuidar e o educar caminhem juntos, é importante que a família participe e compreenda os objetivos do planejamento. Quando começou o trabalho, Sílvia notou que o relacionamento com as famílias poderia ser enriquecedor para as atividades realizadas na creche e, principalmente, para o desenvolvimento das competências dos bebês.

Na reunião inicial, ela buscou mais informações sobre cada criança, conversando em grupo e depois individualmente, e procurou entender as especificidades de cada um. O que eles comiam? Como dormiam? Andavam ou engatinhavam? Tinham objetos de apego? As respostas embasaram o planejamento.

Estabelecer um contato frequente com os pais, porém, foi difícil. A maior parte dos familiares trabalhava muito e não comparecia às reuniões, alegando falta de tempo. Eles enxergavam a creche como um espaço para deixar os filhos enquanto não podiam tomar conta deles, não como um ambiente favorável à aprendizagem. Por isso, a professora se aproximou dos pais ainda na fase da adaptação. Aproveitando a presença deles na creche durante esse período, ela conversou individualmente com todos para conhecer os hábitos de cada família e reforçou a importância da participação de todos nas reuniões.

O registro dos avanços de cada criança é passado aos pais


O contato teve continuidade ao longo do ano, com diários e portfólios, além de reuniões periódicas, nas quais Sílvia aproveitava para explicar, com linguagem clara e acessível, as fases do desenvolvimento das crianças e o que ela esperava avançar com cada uma. "Tirava fotos de tudo e mostrava nas reuniões, desde um bebê segurando a colher na hora do almoço até as brincadeiras monitoradas, explicando o que faziam e, principalmente, o porquê das atividades realizadas na creche", explica ela.

Essa estratégia trouxe avanços visíveis. As famílias passaram a participar mais ativamente: ao fim de cada semana, levavam o diário do seu filho para casa. No início da semana seguinte, esses registros eram devolvidos à professora, com relatos de todas as experiências em casa: um havia provado uma fruta nova e outro que ficado em pé se apoiando na parede e até quem estivesse com gripe. Tudo era considerado pela professora para entender mudanças comportamentais cotidianas, como alterações no sono, falta de apetite e vontade de brincar com os colegas. Essas informações eram inseridas no planejamento, de modo que a educadora podia reavaliar a rotina de atividades de acordo com as mudanças e avanços alcançados por cada criança. "Se o profissional tem esse material, consegue se reorganizar e continuar seguindo com seus objetivos", afirma Pryscilla.

Os erros mais comuns


Não participar da rotina de cuidados.
Além de planejar as atividades pedagógicas, é preciso também programar os momentos de banho, trocas, alimentação e sono das crianças e participar deles. Isso é essencial para o desenvolvimento de vínculos.

Adjetivar as crianças nas conversas com os pais.
Dizer a eles que a criança é muito bagunceira ou briguenta pode levar a conceitos equivocados e rotulá-la no grupo e na família. É necessário lembrar que, nessa faixa etária, as mordidas e o choro também são maneiras de se comunicar com o mundo.

Programar a rotina com base nas necessidades dos adultos e não das crianças.
Ao montar atividades com brincadeiras, por exemplo, é importante observar a medida correta para não excitar demais a criança e levá-la ao cansaço. Também não vale deixá-la dormindo o dia todo. O ideal é observar suas características pessoais e, com base nisso, rever o planejamento.